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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Familias terrivelmente felizes

CLUBE DE LEITURA DA BIBLIOTECA MONTEIRO LOBATO DISCUTE
DIA 13 de setembro de 2013 - 20 horas

Eu poderia começar esse texto com uma consideração direta. Tipo assim: "Acorda prego! Livros comerciais nem se compararam a verdadeira arte da literatura." só para me expressar melhor e para quebrar ou invalidar os conceitos que muitos leitores teriam frente a esta capa (e aquelas questões de publicidade que, geralmente, só livro comercial tem). Contudo, a fim de não exagerar (ou recorrer a certos preceitos para qualificar o que é ou não é literatura) prefiro apenas comentar que, para um leitor, a melhor coisa a se fazer, vez ou outra, é deixar de ler tanta modinha, tanta ‘historinha’, e variar com uma leitura que não se limite apenas ao enredo. Tome-se, por exemplo, o livro ao lado. Parece desinteressante, verdade. Mas eu já li e digo que não é. Na verdade, é uma leitura formidável.

Isto significa que o livro “Famílias terrivelmente felizes” tem algo mais que o enredo? Não, a princípio. Na verdade, a primeira impressão de um leitor que leu a antologia, é que os contos atingem a excelência quando chegam ao ponto de literatura tout court. Depois falaria do estilo de Aquino – que surpreende, sobretudo nos diálogos, por sua economia e fluência – e finalizaria contando uma mudança no conteúdo das narrativas. Diria que começam íntimas, e depois do meio do livro, mudam para fortes histórias de ação, sempre dramáticas e surpreendentes.
Foi por isso que comentei na introdução para os leitores variarem suas leituras porque uma análise a mais, uma observação a mais, sempre requer uma leitura com algo mais. E para perceber “algo mais” em “Famílias terrivelmente felizes” primeiramente observei a cronologia pois cada conto tem a data marcada no final.  O momento em que as narrativas mudam para fortes histórias de ação coincide com outros livros de contos e novelas com tema de ação (Faroestes [2001], O invasor [2002], Cabeça a prêmio [2003]). De certa forma, significa que parte da marca de Aquino passou a ser a violência urbana de suas histórias e sua filiação cinematográfica. 
E não é pra menos. O tema de violência urbana fascina diversos autores brasileiros, cineastas e até já atingiu as novelas de TV – repare que todas elas têm alguma forma de opressão no conflito, seja de nível social, pessoal, etc. 
 
E como a literatura reflete nossos horizontes; artistas brasileiros falariam de violência porque vivem numa sociedade violenta, mesmo que em aspectos insignificantes. Como podemos ver, a idéia é imitar a suposta normalidade da sociedade em que vivemos. (Realismo-Naturalismo)
Mas se procurarmos traços desses dois movimentos nos contos, pouca coisa encontramos. Os personagens não são valorizados, a história não flui lenta, o enredo se sobressai e Aquino é lacônico nas descrições de pessoas e locais (ou seja, o total oposto do realismo). E até quando descreve lugares e personagens, parece ser algo já existente: o “parque sonolento que vira e mexe estaciona nos subúrbios da cidade”, a face esquerda de um pistoleiro é marcado por cicatrizes, o olho de outro é de vidro. As cidades do interior (Paraná e Piauí) são poeirentas. Uma prostituta exibe um cavalo marinho tatuado no ombro. O luminoso pode ter letras apagadas. E praticamente todas as cenas se passam em dias nublados. Algo como que para acentuar os ares de desolação.
Então esses contos são mesmo fragmentos, a geometria narrativa peculiar de Aquino, de um estilo próprio, que começa com um lirismo inicial e depois vai se transformando... Mas sempre literatura sem muitos adereços, e mais substantiva. Assim, percebe-se o algo a mais: essa representação “canhota” dos valores da suposta normalidade da classe média onde o núcleo familiar surge corrompido por vícios, crimes, ciúmes, preconceitos e outros aspectos da violência urbana que passam despercebidos.  Os pais preocupados com a não aceitação do namorado negro de sua filha, a briga de amantes, a mecha de cabelo da noiva que se solta do arranjo como um ponto de interrogação de cabeça pra baixo, a vingança contra um dono de bar que não baixou a porta da taberna contrariando a ordem do manda chuva da região, etc. 
Também impera aqui uma norma de violência como fator democrático. No conto "Boi", um mendigo conspira contra outro para roubar-lhe o barraco onde mora. Mas a vítima vira o jogo, se safa, e quem era o predador vira presa. E mais tarde, volta a ser o predador... No conto "Recuerdos da Babilônia" dois amigos do interior do Piauí se encontram em São Paulo. Um está melhor de vida que o outro. Na volta ao nordeste, a situação se inverte. Mas o pobre usa um "podre" do agora remediado e usa-o para voltar a ascender...

Ou seja, sempre a violência que rola num ciclo vicioso, uma dança das cadeiras fúnebre que inclui ricos, pobres, burgueses, criminosos. Uma violência democrática da qual ninguém escapa. Ou escapa impune

FONTE: Brune

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias

No último dia 16 de agosto o Clube de Leitura discutiu o livro O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias (Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2012). A seguir, a sinopse do livro:

O que confere autenticidade a uma vida? E à obra de um ficcionista? Em “O céu dos suicidas”, estamos diante de duas jornadas distintas, porém complementares. Temos, por um lado, a odisseia ao redor de si mesmo do personagem “Ricardo Lísias”, que, desestruturado pelo suicídio de um grande amigo, já não consegue se reconhecer nas próprias ações e pensamentos. Ao mesmo tempo, há o desafio autoral de Ricardo Lísias: renovar-se após “O livro dos mandarins” (2009), um dos melhores romances brasileiros das últimas décadas, evitando o caminho fácil da autoindulgência e a repetição de fórmulas bem-sucedidas. Um desafio ainda maior para um autor que fez do recurso a fórmulas, repetições e usos deformadores dos lugares comuns da linguagem ordinária a marca do seu estilo.

Embora esses traços não estejam ausentes do novo romance de Lísias, eles deixam de ter uma função estrutural. Há, em “O céu dos suicidas”, uma desestabilização do estilo do autor, provocada por uma abordagem mais direta, nada elíptica, de um material de natureza autobiográfica, solicitado para perturbar, e não para representar, o real. Em “O céu dos suicidas” — assim como em “Meus três Marcelos” e “Divórcio”, seus contos mais recentes —, Lísias atribui seu nome e algo de sua história ao personagem central. Mas é preciso prestar atenção: o narrador de “O céu dos suicidas” não é um ficcionista. Nem sequer gosta de literatura. É um especialista em coleções, perito em assinalar a aura dos objetos, e que, após descartar no fim da adolescência os selos e tampinhas de suas coleções, dá a impressão de ter renunciado à própria autenticidade.

 
  
Narrador perplexo diante da apatia

Depois do suicídio de André (personagem que recebe de Lísias o nome de um amigo que se matou em

2008), o narrador passa a sofrer de ansiedade, insônia, “saudades de tudo” e uma quase síndrome de Tourette: poucos escapam ilesos aos seus impropérios. Ele é intolerante, infantil e narcisista; não tem senso de humor; de tão descompensado e rabugento, chega a ser divertido. “Ricardo Lísias” é uma hipérbole, imagem distorcida pelo espelho da autorrepresentação, como o Malkovich visitante do próprio cérebro no filme “Quero ser John Malkovich”. Mas a autoficção, no livro, não é apenas um dispositivo de modelagem do eu, “escrita de si”. O que está em jogo é um verdadeiro autoensaio, catalisador de epifanias: para “Ricardo Lísias”, o gesto afetivo que torna possível a expiação de sua culpa pela morte do amigo; para Ricardo Lísias, a escrita como experiência de catarse, que pode ajudá-lo a ultrapassar seus impasses, sejam lá quais forem.

Não há, no livro, desenvolvimento psíquico ou amadurecimento do protagonista. “O céu dos suicidas” não é um romance de formação, mas narrativa de domesticação — a ancoragem provisória, possível, de alguém que dificilmente deixará de estranhar o mundo. Paradoxalmente, é com um personagem ensimesmado, irascível, que Lísias renova e fortalece as pretensões humanistas de sua literatura. Seus livros abordam a indiferença, a impessoalidade, o automatismo e a coisificação dos seres humanos. “O céu dos suicidas” adiciona novas possibilidades a esse repertório, distanciando-se tanto das temáticas sociais de “Cobertor de estrelas” (1999), “Duas praças” (2005) e “O livro dos mandarins” como das imersões parciais em experiências limítrofes — eticamente orientadas pela recusa de representar o desespero em sua totalidade —, marcas dos contos de “Anna O. e outras novelas” (2007). Em seu novo romance, Lísias abandona tanto o distanciamento irônico como o afastamento respeitoso em relação aos seus personagens, procedimentos que, em seus livros anteriores, tornavam possível a observação segura, como que do alto, das vicissitudes humanas.

“Tenho feito descobertas: quando a gente grita na rua, ninguém repara”, diz o narrador. Sua perplexidade diante da apatia das pessoas, motivada pela própria insensibilidade frente à angústia do amigo prestes a se matar, é coerente com a fórmula “estamos sós”, que aparece, com leves variações, em toda a narrativa. Numa das melhores cenas do livro, “Ricardo Lísias”, após comunicar ao psiquiatra que acaba de cuspir na cara de um padre, recebe como resposta uma sonora gargalhada, que ao mesmo tempo o desconserta e o faz rir. Ele se sente acolhido, e é apenas isto o que busca, sem conseguir, em cada um dos pequenos capítulos: a delicadeza desinteressada, capaz de restituir sua dignidade.

Sátira da viagem como experiência edificante

Ninguém lhe diz a única coisa que precisa ouvir, que seu amigo “vai para o céu” mesmo sendo um suicida. Não é o diálogo, mas o contato físico o que, no livro, aproxima as pessoas: a neta acariciando os cabelos da avó, o anseio do narrador por um toque afetuoso. Ele não encontra nada de relevante fora ou dentro de si, nos rastros de André, na árvore genealógica de sua família, na viagem ao Líbano — que soa como sátira à abordagem, comum entre autores brasileiros contemporâneos, da viagem como experiência edificante.

Mesmo sem ser radical como “O livro dos mandarins”, engenhoso como “Duas praças” ou sufocante como “Anna O.”, “O céu dos suicidas” é um experimento consistente, no tratamento refinado da matéria autobiográfica e no olhar sensível para o potencial humanizador dos pequenos gestos. Mas nem sempre é convincente na construção narrativa, dando a impressão de que alguma coisa notável está sendo gestada no laboratório autoral de Lísias, sem ter alcançado ainda sua expressividade perfeita. As súbitas modulações da voz, da melancolia para a verborragia furiosa, do transtorno exaltado para a singeleza, distanciam o leitor da pretendida epifania do protagonista. As aspirações humanistas do livro são como ideias a priori, sugestões de conduta, e não possibilidades abertas pelo atrito dos personagens, por suas trocas e diálogos. Exploradas numa via de mão única, não conseguem transcender os pontos de vista de um homem fechado em si mesmo, incapaz de se recompor de outra forma que não pelo caminho que julga ser o certo.



Leia mais: Ricardo Lísias e a arte de perder

FONTE: O GLOBO.