O que confere autenticidade a uma vida? E à obra de um ficcionista? Em “O céu dos suicidas”, estamos diante de duas jornadas distintas, porém complementares. Temos, por um lado, a odisseia ao redor de si mesmo do personagem “Ricardo Lísias”, que, desestruturado pelo suicídio de um grande amigo, já não consegue se reconhecer nas próprias ações e pensamentos. Ao mesmo tempo, há o desafio autoral de Ricardo Lísias: renovar-se após “O livro dos mandarins” (2009), um dos melhores romances brasileiros das últimas décadas, evitando o caminho fácil da autoindulgência e a repetição de fórmulas bem-sucedidas. Um desafio ainda maior para um autor que fez do recurso a fórmulas, repetições e usos deformadores dos lugares comuns da linguagem ordinária a marca do seu estilo.
Embora esses traços não estejam ausentes do novo romance de Lísias, eles deixam de ter uma função estrutural. Há, em “O céu dos suicidas”, uma desestabilização do estilo do autor, provocada por uma abordagem mais direta, nada elíptica, de um material de natureza autobiográfica, solicitado para perturbar, e não para representar, o real. Em “O céu dos suicidas” — assim como em “Meus três Marcelos” e “Divórcio”, seus contos mais recentes —, Lísias atribui seu nome e algo de sua história ao personagem central. Mas é preciso prestar atenção: o narrador de “O céu dos suicidas” não é um ficcionista. Nem sequer gosta de literatura. É um especialista em coleções, perito em assinalar a aura dos objetos, e que, após descartar no fim da adolescência os selos e tampinhas de suas coleções, dá a impressão de ter renunciado à própria autenticidade.
Narrador perplexo diante da apatia
Depois do suicídio de André (personagem que recebe de Lísias o nome de um amigo que se matou em
Não há, no livro, desenvolvimento psíquico ou amadurecimento do protagonista. “O céu dos suicidas” não é um romance de formação, mas narrativa de domesticação — a ancoragem provisória, possível, de alguém que dificilmente deixará de estranhar o mundo. Paradoxalmente, é com um personagem ensimesmado, irascível, que Lísias renova e fortalece as pretensões humanistas de sua literatura. Seus livros abordam a indiferença, a impessoalidade, o automatismo e a coisificação dos seres humanos. “O céu dos suicidas” adiciona novas possibilidades a esse repertório, distanciando-se tanto das temáticas sociais de “Cobertor de estrelas” (1999), “Duas praças” (2005) e “O livro dos mandarins” como das imersões parciais em experiências limítrofes — eticamente orientadas pela recusa de representar o desespero em sua totalidade —, marcas dos contos de “Anna O. e outras novelas” (2007). Em seu novo romance, Lísias abandona tanto o distanciamento irônico como o afastamento respeitoso em relação aos seus personagens, procedimentos que, em seus livros anteriores, tornavam possível a observação segura, como que do alto, das vicissitudes humanas.
“Tenho feito descobertas: quando a gente grita na rua, ninguém repara”, diz o narrador. Sua perplexidade diante da apatia das pessoas, motivada pela própria insensibilidade frente à angústia do amigo prestes a se matar, é coerente com a fórmula “estamos sós”, que aparece, com leves variações, em toda a narrativa. Numa das melhores cenas do livro, “Ricardo Lísias”, após comunicar ao psiquiatra que acaba de cuspir na cara de um padre, recebe como resposta uma sonora gargalhada, que ao mesmo tempo o desconserta e o faz rir. Ele se sente acolhido, e é apenas isto o que busca, sem conseguir, em cada um dos pequenos capítulos: a delicadeza desinteressada, capaz de restituir sua dignidade.
Sátira da viagem como experiência edificante
Ninguém lhe diz a única coisa que precisa ouvir, que seu amigo “vai para o céu” mesmo sendo um suicida. Não é o diálogo, mas o contato físico o que, no livro, aproxima as pessoas: a neta acariciando os cabelos da avó, o anseio do narrador por um toque afetuoso. Ele não encontra nada de relevante fora ou dentro de si, nos rastros de André, na árvore genealógica de sua família, na viagem ao Líbano — que soa como sátira à abordagem, comum entre autores brasileiros contemporâneos, da viagem como experiência edificante.
Mesmo sem ser radical como “O livro dos mandarins”, engenhoso como “Duas praças” ou sufocante como “Anna O.”, “O céu dos suicidas” é um experimento consistente, no tratamento refinado da matéria autobiográfica e no olhar sensível para o potencial humanizador dos pequenos gestos. Mas nem sempre é convincente na construção narrativa, dando a impressão de que alguma coisa notável está sendo gestada no laboratório autoral de Lísias, sem ter alcançado ainda sua expressividade perfeita. As súbitas modulações da voz, da melancolia para a verborragia furiosa, do transtorno exaltado para a singeleza, distanciam o leitor da pretendida epifania do protagonista. As aspirações humanistas do livro são como ideias a priori, sugestões de conduta, e não possibilidades abertas pelo atrito dos personagens, por suas trocas e diálogos. Exploradas numa via de mão única, não conseguem transcender os pontos de vista de um homem fechado em si mesmo, incapaz de se recompor de outra forma que não pelo caminho que julga ser o certo.
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FONTE: O GLOBO.

