CLUBE DE LEITURA DA BIBLIOTECA MONTEIRO LOBATO DISCUTE
DIA 13 de setembro de 2013 - 20 horas
Eu
poderia começar esse texto com uma consideração direta. Tipo assim:
"Acorda prego! Livros comerciais nem se compararam a verdadeira arte da
literatura." só para me expressar melhor e para quebrar ou
invalidar os conceitos que muitos leitores teriam frente a esta capa (e aquelas questões de publicidade que,
geralmente, só livro comercial tem). Contudo, a fim de não exagerar (ou
recorrer a certos preceitos para qualificar o que é ou não é literatura)
prefiro apenas comentar que, para um leitor, a melhor coisa a se fazer, vez ou
outra, é deixar de ler tanta modinha, tanta ‘historinha’, e variar com uma
leitura que não se limite apenas ao enredo. Tome-se, por exemplo, o livro ao
lado. Parece desinteressante, verdade. Mas eu já li e digo que não é. Na verdade, é uma leitura formidável.
Isto significa que o livro “Famílias
terrivelmente felizes” tem algo mais que o enredo? Não, a princípio. Na
verdade, a primeira impressão de um leitor que leu a antologia, é que os contos
atingem a excelência quando chegam ao ponto de literatura tout court. Depois falaria do estilo de Aquino – que surpreende,
sobretudo nos diálogos, por sua economia e fluência – e finalizaria contando
uma mudança no conteúdo das narrativas. Diria que começam íntimas, e depois do
meio do livro, mudam para fortes histórias de ação, sempre dramáticas e
surpreendentes.
Foi por isso que comentei na introdução para os
leitores variarem suas leituras porque uma análise a mais, uma observação a
mais, sempre requer uma leitura com algo mais. E
para perceber “algo mais” em “Famílias terrivelmente
felizes” primeiramente observei a cronologia pois cada conto tem a data
marcada no final. O momento em que as narrativas mudam para fortes
histórias de ação
coincide com outros livros de contos e novelas com tema de ação
(Faroestes
[2001], O invasor [2002], Cabeça a prêmio [2003]). De certa forma,
significa
que parte da marca de Aquino passou a ser a violência urbana de suas
histórias e sua
filiação cinematográfica.
E não é pra menos. O tema de violência urbana
fascina diversos autores brasileiros, cineastas e até já atingiu as novelas de
TV – repare que todas elas têm alguma forma de opressão no conflito, seja de
nível social, pessoal, etc.
E como a literatura reflete nossos horizontes; artistas brasileiros falariam de violência porque vivem numa sociedade violenta,
mesmo que em aspectos insignificantes. Como podemos ver, a idéia é imitar a
suposta normalidade da sociedade em que vivemos. (Realismo-Naturalismo)
Mas se procurarmos traços desses dois movimentos
nos contos, pouca coisa encontramos. Os personagens
não são valorizados, a história não flui lenta, o enredo se sobressai e Aquino
é lacônico nas descrições de pessoas e locais (ou seja, o total oposto do realismo). E até quando descreve lugares e
personagens, parece ser algo já existente: o “parque sonolento que vira e mexe
estaciona nos subúrbios da cidade”, a face esquerda de um pistoleiro é marcado
por cicatrizes, o olho de outro é de vidro. As cidades do interior (Paraná e
Piauí) são poeirentas. Uma prostituta exibe um cavalo marinho tatuado no ombro.
O luminoso pode ter letras apagadas. E praticamente todas as cenas se passam em
dias nublados. Algo como que para acentuar os ares de desolação.
Então
esses contos são
mesmo fragmentos, a geometria narrativa peculiar de Aquino, de um estilo
próprio, que começa com um lirismo inicial e depois vai se
transformando... Mas
sempre literatura sem muitos adereços, e mais substantiva. Assim,
percebe-se o
algo a mais: essa representação “canhota” dos valores da suposta
normalidade da
classe média onde o núcleo familiar surge corrompido por vícios, crimes,
ciúmes, preconceitos e outros aspectos da violência urbana que passam
despercebidos. Os pais preocupados com a não aceitação do namorado
negro de sua filha, a briga de amantes, a mecha de cabelo da noiva que
se solta do arranjo como um ponto de interrogação de cabeça pra baixo, a
vingança contra um dono de bar que não baixou a porta da taberna
contrariando a ordem do manda chuva da região, etc.
Também impera aqui uma norma de violência como fator democrático. No conto "Boi", um mendigo conspira contra outro para roubar-lhe o barraco onde mora. Mas a vítima vira o jogo, se safa, e quem era o predador vira presa. E mais tarde, volta a ser o predador... No conto "Recuerdos da Babilônia" dois amigos do interior do Piauí se encontram em São Paulo. Um está melhor de vida que o outro. Na volta ao nordeste, a situação se inverte. Mas o pobre usa um "podre" do agora remediado e usa-o para voltar a ascender...
Também impera aqui uma norma de violência como fator democrático. No conto "Boi", um mendigo conspira contra outro para roubar-lhe o barraco onde mora. Mas a vítima vira o jogo, se safa, e quem era o predador vira presa. E mais tarde, volta a ser o predador... No conto "Recuerdos da Babilônia" dois amigos do interior do Piauí se encontram em São Paulo. Um está melhor de vida que o outro. Na volta ao nordeste, a situação se inverte. Mas o pobre usa um "podre" do agora remediado e usa-o para voltar a ascender...
FONTE: Brune
